Life’s suite

““Dê-me portanto um corpo”: esta é a fórmula da reversão filosófica. O corpo não é mais o obstáculo que separa o pensamento de si mesmo, aquilo que deve superar para conseguir pensar. É, ao contrário, aquilo em que ele mergulha ou deve mergulhar, para atingir o impensado, isto é, a vida. Não que o corpo pense, porém, obstinado, teimoso, ele força a pensar, e força a pensar o que escapa ao pensamento, a vida. Não mais se fará a vida comparecer perante as categorias do pensamento, lograr-se-á o pensamento nas categorias da vida.”

Gilles Deleuze, A Imagem-tempo

Life’s suite – Sarabanda do Lixão

PROJETO EM DESENVOLVIMENTO

Life’s suite se baseia abertamente, livremente no filme “La Dolce Vita” do maestro italiano Federico Fellini. O texto do Prelúdio será composto de uma narrativa fantasiosa  seguindo o percurso através da alma humana que Fellini propõe ao resgatar o subjetivismo, mas sem subjetividade, e ao contrapor valores espirituais àqueles excessivamente materialistas. E, já que a ideia original de Fellini para “La Dolce Vita” provém do estilo específico do vestido “sack” criado por Balenciaga em 1957, o vídeo e a ação performativa em si ostentarão uma cópia, ainda que muito mais inspirada nos croquis iniciais de Fellini para a personagem de Anita Ekberg, do vestido da cena da Fontana di Trevi. O vídeo da projeção terá como locação as montanhas e mares de lixo do despejo sanitário – famoso lixão – Aterro da Terra Dura nos arredores da cidade de Aracaju, capital do estado de Sergipe. As intervenções no local do aterro e as possíveis parcerias com a comunidade que vive no/do lixão da Terra Dura serão mediadas por uma bióloga que desenvolve trabalho social nesse sítio.

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Sobre o título:

Suíte – A Vida enquadrada, seja a pintura exposta na moldura, sejam as paredes do museu, sejam as quatro paredes do teatro, seja o cubo branco, seja a tela do computador como interface da rede Internet.

Life is sweet – “La Dolce Vita” de Fellini. Esse projeto segue um recente interesse, em minha prática artística, pela apropriação declarada. Uma certa crítica à pretensa de originalidade:

“Originality is undetected plagiarism.” W. R. Inge.

Suite – Música. Conjunto de movimentos instrumentais dispostos com algum elemento de unidade para serem tocados sem interrupções.

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Life’s suite – Sarabanda do Lixão é uma suíte barroca em três movimentos:

-Prelúdio: convocação e texto.

-Sarabanda: projeção de vídeo sobre paisagem “natural” como uma queda d’água.

-Giga: dança performativa nas águas.

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Eis algumas questões e ideias sobre as quais Life’s suite se fundamenta:

Fellini definiu “La Dolce Vita” como um percurso através da alma humana. Em “La Dolce Vita”, a história não pode existir, só o tempo de uma espera (de um milagre). Fellini mostra a inércia em que podemos nos imergir mesmo em meio a uma frenética sarabanda social e exibe tudo isso através de um pessimismo filtrado pelo humor, confiante na fantasia como pertencente à vida, uma fantasia “que tem uma dimensão muito mais real que aquela que nos parece ser a dimensão física.” (Trecho de uma entrevista publicada em Schermi, edição n.21, março de 1960)

Se a presença cinematográfica rivaliza com a presença dos corpos do teatro e, justamente por não possuir a presença dos corpos, vai além desta com outros meios ao nos impingir uma capacidade de restituir o mundo e o corpo a partir do que significa a ausência destes; que tipo de acesso às categorias da vida, para que espécie de urgência desperta em nós a Arte Viva (Live Art)?

Já no começo da década de noventa Régis Debray constatava que “a paisagem, assim como a arte, eram vivenciadas; agora são construídas.” (Régis Debray, Vida e Morte da Imagem)

O “corpo” do artista, o corpo, essa fronteira entre o público e o privado, onde se dá a revelação do mundo e onde se vive a Vida. Pode o corpo do artista como sujeito e objeto da obra de arte nos restituir o papel de artistas conscientes como homens “do campo”, “com os pés metidos no pagus e a mão na massa” ao invés de “paisagistas” e de “animadores”? (Régis Debray, Vida e Morte da Imagem)

Ecologia e sustentabilidade, por serem atuais e urgentes, são questões com as quais a Arte se depara e muitas vezes antecipa. Uma verdadeira e atual relação entre arte, ecologia e sustentabilidade dar-se-á quando uma nova “imaginação”, nova faculdade para fazer e para decifrar imagens, estabelecer uma conexão vivenciada com as categorias da vida.

Independentemente do grau de popularização da etiqueta “green” e de quão comum palavras como ecologia e sustentabilidade tenham se tornado nos discursos cotidiano e político, esses conceitos ainda não fazem parte da sociedade como um todo. O significado desses termos devem influenciar não só nossas ideias mas principalmente nosso comportamento.

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Life’s suite (to be also read as ‘Life is sweet’) is a project under development that makes part of my current academic research on performance art for the department of Visual Arts of the Universidade de São Paulo, Brazil. It draws itself into a bigger picture where Art can not only relate to Life, but also correspond to/with Life.

Life’s suite intends to question and expand the definition of Live Art itself by promoting an active and outspoken relation between the artist, the other and the world in which we live. It proposes a renewed engagement with the notions of sustainability and individualism while considering the performer’s body as the object and subject of the artwork.

Life’s suite asserts the importance of the encounter with the consciously embodied performer as one of the promoters of that place from where new ways of relating with respect to the other and to the paisage can flourish.

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